Regularização de Imóveis
Como regularizar imóvel sem escritura: fluxograma para escolher entre escritura, adjudicação, usucapião ou REURB
Para saber como regularizar imóvel sem escritura, responda a cinco perguntas: em nome de quem está a matrícula, se o vendedor pode assinar, se o preço foi quitado, há quanto tempo você está no imóvel e se o problema é só seu ou do bairro inteiro. As respostas levam a um de cinco caminhos: escritura definitiva, adjudicação compulsória, usucapião, inventário ou regularização fundiária (REURB).

- Sem registro na matrícula, a lei continua tratando como dono quem vendeu o imóvel.
- Vendedor disponível e preço pago: escritura e registro, o caminho mais curto.
- Vendedor sumido, falecido ou que se recusa: adjudicação compulsória, em cartório ou na Justiça.
- Sem contrato, mas com posse antiga: usucapião. Bairro inteiro irregular: REURB.
Por que o imóvel sem escritura não é seu, para a lei
No Brasil, a propriedade de imóvel só passa de uma pessoa para outra com o registro do título na matrícula do imóvel, no Cartório de Registro de Imóveis. Contrato particular, recibo e chave na mão provam o negócio entre as partes, mas não transferem a propriedade.
Transfere-se entre vivos a propriedade mediante o registro do título translativo no Registro de Imóveis. § 1º Enquanto não se registrar o título translativo, o alienante continua a ser havido como dono do imóvel.
Código Civil (Lei 10.406/2002), art. 1.245, caput e § 1º
Título translativo é o documento que transfere o imóvel: escritura pública, sentença, carta de adjudicação, formal de partilha. Enquanto ele não é registrado, quem vendeu segue como dono perante todos.
Na prática, isso significa que dívidas do vendedor podem gerar penhora do imóvel, que os herdeiros dele podem reclamar a casa e que você não consegue vender com escritura nem financiar.
Para conferir quem é o dono registrado, o primeiro passo é pedir a certidão da matrícula no cartório que atende o endereço. O guia sobre o cartório de registro de imóveis em São Paulo mostra como achar o seu.

O fluxograma: cinco perguntas que definem o caminho
Siga as perguntas na ordem. Na primeira resposta que se encaixar no seu caso, você encontra o caminho mais provável.
A confirmação vem da leitura da matrícula e dos seus documentos.
A matrícula está em nome de um parente falecido?
Se sim, e você é herdeiro, o caminho é o inventário, que pode ser feito em cartório quando há acordo entre os herdeiros. Se não, siga para a pergunta 2.
Pergunta 1O bairro ou loteamento inteiro não tem registro?
Se os lotes vizinhos estão na mesma situação e não existem matrículas individuais, o caminho é a regularização fundiária urbana, a REURB, conduzida pelo Município. Se não, siga para a pergunta 3.
Pergunta 2Você tem contrato ou recibo e pagou tudo?
Se sim, siga para a pergunta 4. Se não tem documento da compra ou não consegue provar o pagamento, vá para a pergunta 5.
Pergunta 3O vendedor, ou os herdeiros dele, aceita assinar?
Se sim, o caminho é a escritura definitiva no Tabelionato de Notas e o registro. Se ele sumiu, morreu ou se recusa, o caminho é a adjudicação compulsória.
Pergunta 4Você está no imóvel como dono há muitos anos?
Se sim, com posse contínua e sem oposição pelo prazo legal, o caminho é a usucapião. Se não, o caso pede análise individual antes de qualquer gasto.
Pergunta 5
Os cinco caminhos lado a lado
A tabela resume quando cada caminho cabe, onde corre e o prazo comum. As faixas são estimativas para casos sem disputa.
| Caminho | Quando cabe | Onde corre e prazo comum |
|---|---|---|
| Escritura definitiva | Vendedor ou herdeiros dispostos a assinar, preço quitado | Tabelionato de Notas e Registro de Imóveis. De 1 a 3 meses |
| Adjudicação compulsória | Contrato e prova de quitação, vendedor ausente, falecido ou que se recusa | Registro de Imóveis, de 4 a 10 meses, ou Justiça |
| Usucapião | Posse antiga, como dono, sem oposição, com ou sem contrato | Registro de Imóveis, de 6 a 18 meses, ou Justiça |
| Inventário | Imóvel em nome de parente falecido de quem você é herdeiro | Tabelionato de Notas com acordo, ou Justiça |
| REURB | Núcleo urbano informal: loteamento ou bairro inteiro sem registro | Prefeitura e Registro de Imóveis, para todo o núcleo |
Arraste a tabela para o lado para ver todas as colunas.

Escritura e adjudicação: quando você comprou e pagou
Quem comprou por contrato particular, o chamado contrato de gaveta, e quitou o preço tem direito à escritura. Se o vendedor assina, lavra-se a escritura no Tabelionato de Notas, recolhe-se o ITBI, imposto municipal sobre a transmissão, e registra-se na matrícula.
Se ele não assina, a adjudicação compulsória substitui a assinatura. Desde a Lei 14.382/2022, ela pode ser feita direto no Registro de Imóveis, sem processo, pelo artigo 216-B da Lei 6.015/1973. O guia contrato de gaveta ainda vale mostra os riscos de deixar essa situação parada.
Usucapião e REURB: quando não há papel da compra
Sem contrato ou com a cadeia de vendas perdida, a saída costuma ser a usucapião do imóvel ocupado há anos. Ela reconhece a propriedade pela posse prolongada e não depende de quem vendeu.
Exige prova do tempo de posse e, em regra, planta e memorial do imóvel.
Quando o problema é coletivo, como em loteamentos antigos que nunca foram registrados, a regularização fundiária urbana prevista na Lei 13.465/2017 resolve todos os lotes de uma vez. A iniciativa pode partir do Município ou dos moradores, e o resultado é a abertura de matrículas individuais.
Erros comuns de quem tenta regularizar sozinho
O que atrasa ou encarece
- Pagar planta e ata notarial antes de saber qual é o caminho
- Lavrar escritura sem conferir penhoras na matrícula do vendedor
- Pedir usucapião quando havia contrato quitado e vendedor localizável
- Esperar o vendedor morrer para só então agir
O que faz o caso andar
- Começar pela certidão da matrícula e pelo diagnóstico
- Puxar certidões do vendedor antes de qualquer escritura
- Escolher a via que os seus documentos sustentam
- Agir enquanto o vendedor e as testemunhas estão vivos
Não existe caminho certo em abstrato. Existe o caminho que os seus documentos permitem, e ele aparece na primeira leitura da matrícula.
Perguntas frequentes
Qual é o jeito mais rápido de regularizar imóvel sem escritura?
Com o vendedor disponível e o preço quitado, a escritura definitiva seguida do registro, que costuma levar de 1 a 3 meses. Sem a assinatura dele, a adjudicação compulsória em cartório é o caminho mais curto para quem tem contrato e prova de pagamento.
Só o contrato de compra e venda já prova que o imóvel é meu?
Prova o negócio entre você e o vendedor, mas não a propriedade. Pelo artigo 1.245 do Código Civil, enquanto o título não é registrado, quem vendeu continua sendo considerado dono.
O vendedor morreu. Ainda dá para regularizar?
Dá. Os herdeiros podem assinar a escritura.
Se não assinarem ou não forem encontrados, cabe a adjudicação compulsória, com notificação do espólio ou dos herdeiros.
Quanto custa regularizar imóvel sem escritura?
Os componentes variam conforme o caminho: emolumentos do tabelião e do registro, ITBI quando há transmissão, planta e memorial na usucapião, certidões e honorários. O valor só pode ser estimado depois do diagnóstico.
Preciso de advogado para regularizar?
Na escritura simples com o vendedor, a lei não exige. Na adjudicação compulsória em cartório e na usucapião, o advogado é obrigatório.
Em todos os casos, o diagnóstico prévio evita gastar no caminho errado.

Quem escreve
Euvaldo AtallaEuvaldo Atalla é advogado e economista, com 28 anos de experiência, e conduz a Atalla Advocacia, escritório de Direito Imobiliário e de Cobrança e Execução em São Paulo. É pós-graduado em Direito Imobiliário e em Direito Notarial e Registral e membro da Comissão de Direito Imobiliário e Urbanístico e da Comissão de Contratos da OAB Santo Amaro, São Paulo (SP). Euvaldo Atalla escreve e revisa os artigos do blog da Atalla Advocacia, conferindo cada lei e prazo citado. Conhecer a trajetória de Euvaldo Atalla
Este artigo tem caráter informativo e não substitui a análise do caso por advogado. As leis e decisões citadas podem mudar; a aplicação ao seu caso depende dos documentos e dos fatos.




